(Est)Ética


Todos os dias somos lembrados das características físicas e sociais mais culturalmente aceitáveis/desejáveis/invejáveis. Por mais diversificados que esses “modelos” encarnados de idealização estética possam ser entre tantos anúncios, novelas e filmes, dificilmente alguém teria dificuldade em reconhecer os fenótipos omitidos por esses discursos dirigidos à massa.

Basta olharmos ao nosso redor para percebermos  que as “pessoas” escolhidas pela mídia em muito divergem da realidade. E mesmo trabalhando para tal mercado (da moda, cosméticos e afins), para cada modelo sarado deve haver (pelo menos) duas pessoas da equipe de técnica que se aproximam mais do que poderíamos chamar de ser humano “comum”. Comum apenas por sua recorrência estatística.

Então por que é preferível ver pessoas “incomuns” associadas a versões “melhoradas” de nós mesmos – como frequentemente prometem os anunciantes de produtos “estetizantes”? Será que essa obsessão por fenótipos idealizados e irreproduzíveis não é sinal da dificuldade que temos entre perceber o “ideal” apenas como referência invés de aceitá-lo como norma universal?

Não estou dizendo que os comunicadores de massa são vilões da autoestima do cidadão comum. Até porque eles não estão acima dos valores da nossa cultura e são tão sujeitos dela quanto qualquer um. E nem acredito que a escolha por “modelos” mais “comuns” resolveria o distúrbio de imagem da vez.

O que gostaria de entender é como as representações “artísticas” dos ideais estéticos gregos, posteriormente retomados pelo renascimento, foram elevados  a um plano muito além do representativo, a serviço da cultura de um modelo de bem-estar único para todos os seres humanos.

Talvez seja um efeito do desaparecimento da “aura” das obras de arte. Talvez a constante reprodução dessas imagens “exemplares”, nas produções midiáticas tenha o poder subliminar de impor como norma tudo que é considerado digno de estampar as suas mensagens.

Acontece que mais uma vez, o público define o conteúdo dessas mensagens tanto quanto os seus produtores, que em algum momento também se encontram no canal receptivo. Isso para não dizer que todos nós,  receptores, somos ainda mais responsáveis por endossar ideais que nos subjugam.

Exemplo recente disso foram as declarações do CEO da Abercrombie & Fitch, uma marca de moda jovem ianque, que disse que gente feia não deveria consumir os produtos da grife. Algo que parece não ter ficado claro, apesar dos anos promovendo a obsessão pela juventude e boa-forma física da nossa cultura que deixariam até a juventude hitlerista orgulhosa. Fato que, embora  tenha gerado burburinho e reprimendas online, depois de um pedido sincero de desculpas em nada afetou as vendas.

Imagino que muitos vão dizer que é uma questão de preferência/gosto/atração. E, como vivemos numa época de culto “hedonista”, toda mensagem tem de se fazer atraente. Nada mais plausível! Então repito, será que essa “normalização” do ideal não é fruto da dificuldade que temos de aceitar a nossa realidade? Não falo só de nos olharmos no espelho e nunca encontrarmos satisfação,  mas de projetarmos sobre nós e os outros imagens que são inalcançáveis sem ajuda do Photoshop. Seria isso um distúrbio de imagem? Estamos fadados a expectativas irreais e à frustração de não aceitarmos o que é refletido no espelho?

Outros também defenderão essas imagens como uma tentativa de promover a saúde e o bem-estar. Um incentivo para que sejamos uma forma cada vez melhor de nós mesmos. Uma maneira de apontar a “média” biométrica mais recomendável. Uma demonstração do resultado obtido quando temos uma conduta “ética” apropriada com nossos próprios corpos.

Contudo,  o grande problema que vejo nisso é a ampla aceitação de imagens produzidas e manipuladas como exemplo, real e possível,  de saúde e bem-estar. Promovidos por discursos, próximos em suas técnicas, dos mesmos (atraentes) argumentos  que associam comida à felicidade. Será que esse combo “frustração com o espelho” + “reconforto hipercalórico” são os responsáveis pelo alarmante aumento no número de obesos no país e no mundo?

Acredito que sim, porém não sei se algo pode ser mudado caso não haja conscientização de que um padrão único,  por mais atraente que este seja, nunca englobará a pluralidade do real. O problema não está exclusivamente na “forma” dessas imagens,  mas na crença de que um molde (único) cabe em todo e qualquer um.

Por fim,  apesar de perceber a predominância dessa “norma” estética como um projeto tácito de eugenia,  acredito que graças à popularização das câmeras digitais e às redes sociais acabaremos nos habituando com a multiplicidade “física” dos seres humanos comuns, de beleza exemplar ou questionável.  E que, a exemplo da nova campanha da Diesel, que encontrou alguns modelos em redes sociais como o Instagram, novos discursos se apropriarão de estéticas outras para incluir novos mercados, e aumentar o número de pessoas que não apenas se veem representadas mas também aceitas em sua divergência do padrão “ideal”.

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