Nós, pronome mais que perfeito?


Talvez por causa de Hollywood, o Holocausto – que não dizimou apenas judeus – permanece na memória coletiva de toda a cultura Ocidental. Posso até estar exagerando, mas acho mais fácil o filho do seu vizinho saber o que foi o Holocausto do que o Movimento dos Caras Pintadas, por exemplo. E sempre que eu participo de alguma conversa sobre o assunto, alguém sempre mostra indignação e incapacidade de compreender como foi possível que grande parte de uma nação fosse omissa frente a tamanha atrocidade.

É verdade que houve todo um contexto econômico e histórico que possibilitou a ascenção do fascismo, mas eu acho que todos somos capazes de reproduzir os aspectos sociais dessa ideologia. Desde sempre o ser humano demonstra a tendência em acreditar que alguns seres humanos são mais “iguais” do que outros. E tudo bem, fazer parte de um grupo e se sentir aceito por ele é, reconhecidamente, uma necessidade humana. No entanto, acreditar que a característica que nos une ao “nosso” grupo nos proporciona algum tipo de autoridade que é problemático.

Inicialmente eu ia falar neste post como é bom pertencer a um grupo. Eu mesmo demorei quase vinte anos pra encontrar alguém – não fictício – que não me fizesse sentir como um completo E.T.. Mas, então, lembrei de como a terceira pessoa do plural oculta um certo senso de exclusão para quem está na outra margem do nosso senso de identificação.

Se ao utilizarmos a palavra “nós”, implicitamente expressamos uma noção de coletividade, ao nos referirmos a “eles” ou “elas” deixamos claro que algo nos difere das pessoas às quais nos referimos. E isso, geralmente, é apenas um recurso linguístico, mas quando regido por aquela necessidade, ainda mais frequentemente podemos observar danos tanto a quem pertence quanto aos que ficaram de fora.

Para o homem grego da Antiguidade, o sentimento de coletividade se fez legítimo na noção de cidadania. Hoje em dia as narrativas que aproximam e unem os mais diversos grupos sociais são inúmeras. E embora para muitos esses grupos sirvam para nos fazer sentir acolhidos em nossas, até então, “singularidades”, algumas pessoas acabam se limitando aos rótulos que os tornam membros do grupo.

E o problema é exatamente esse, se limitar. Seja ao grupo dos arianos, dos curitibanos, dos sarados, dos leitores compulsivos ou da aleatoriedade que for. Ninguém é capaz de se encaixar perfeitamente nos moldes “biográficos” de outro indivíduo. E não falo isso porque tentei quando encontrei o segundo E.T. na Terra, mas sim porque quando não nos permitimos o convívio com pessoas com as quais nem imaginamos uma compatibilidade, ela surpreendentemente aparece. Talvez nem sempre de maneira tão intensa, mas acredito que há de fato um problema quando consideramos impossível ter algo em comum com outro ser humano.

Contudo, se você chegou até essa parte do texto sem entender como o nazismo começou com tudo, basta lembrar que eles não tentaram eliminar ninguém que não fosse tão humano quanto eles mesmos. Agora, se você acha que é exagero meu, é só parar pra pensar como algo tão humano quanto pelos pubianos – e não aparados – pode ser usado para diminuir e até mesmo excluir alguém de uma possibilidade afetiva, como anda sendo feito com a Nanda Costa. Porque quando se acredita que a nossa forma de ser – “minha e dos meus iguais” – coletivamente é A certa, se faz necessária aperfeiçoar a dos outros também. Eliminando, condenando ou ocultando qualquer dessas outras formas de serem representadas como uma alternativa aceitável.

Previous It's O.K to be a boy!
Next Gay para ficar, gay para namorar...

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *