Essa bicha não me representa! – Parte 2: Arrasando!


Se existe um povo com talento para transformar tudo em piada é o brasileiro. Com seus absurdos, a política é um terreno fértil e não é de hoje que críticas e reflexões sobre ela são cheias de humor, inclusive na recente onda de manifestações. Quando tudo não descambava para a violência, dava show de irreverência. Mas não é interessante que, mesmo em círculos politizados, algumas piadinhas e xingamentos sejam simplesmente homofóbicos e/ou misóginos?

Já falei antes: temos que tomar cuidado com a nossa homofobia. Não somos inteiramente culpados por ela, pois é impossível crescer sem influência do meio, além do nosso mundo ser machista. Mas a graça de amadurecer é justamente exercitar o senso crítico e perceber que nem tudo que nos ensinam presta. Rir é o melhor remédio, mas se não tomarmos cuidado, acabaremos por reproduzir os discursos que condenamos, dando “munição” para quem nos ataca.

Não estou aqui pra pagar de Supergay, como se estivesse acima de tudo isso. Também morri de rir da chapinha do (in)Feliciano e de como ele é a CA-RA da Vanessão fintchy reaish, sem falar que o moço é MESTRE em dar motivos para gargalhadas. O mais recente é a bela foto tirada durante a Marcha Para Jesus, aquele evento onde esqueceram de Cristo e só falaram dos gays, sabe?

cascolega

Mas Fefê não é o único exemplo. Nos protestos pelo Brasil, cartazes e cantorias chamando a Presidente de “Sapatão” ou “Vadia” pulularam, pra não falar nas mães dos políticos, sempre presentes na boca do povo. A gente acaba “perdendo a razão”, porque não faz sentido gritar por igualdade apontando diferenças, sejam verdadeiras ou não. Também concordo que é meio chato se policiar o tempo todo e tentar ser politicamente correto, ainda mais em momentos de emoção como um protesto, mas temos que pensar em tudo.

Marco Feliciano foi uma bênção, pois foi graças a ele que uma boa parcela da população acordou para os disparates dos fundamentalistas e o horror de seus jogos políticos. Acontece que parte do trabalho dele é ser um mestre da manipulação, e pegar qualquer deslize para “virar o jogo”, passando de algoz à vítima. Isso faz toda a diferença.

Entre amigos, usamos livremente termos como “viado” ou “bicha”. Há algum tempo, fiz um post listando “65 curiosidades gays” que ironizava nossos estereótipos, e para alguns foi apenas um desfile de preconceitos. Mas o que proponho aqui é simplesmente uma reflexão. Será possível que sejamos tão machistas que, na hora de xingar, a “ofensa” sai sempre do universo feminino/efeminado? Entendo que chamar o pastor de “maricona” é ironia, já que ele critica tanto uma coisa que parece ser. Entretanto, a praça pública da internet maximiza nossas opiniões e emoções, além de jogar uma lupa sobre cada vírgula que postamos. Será que podemos realmente falar ou fazer qualquer coisa neste meio? O que isso diz sobre nós?

Nesse momento não falo apenas de “nós gays”, mas de seres humanos. É muito fácil ser liberal e politicamente correto via internet, ser progressista quando todo mundo está dando LIKE no seu post ou batendo foto do seu cartaz. Como não estamos numa mesa de bar, a liberdade que tenho com as amigues na buatchy não cabe. Todo mundo, com todos os seus malucos, conservadores e iletrados, está olhando. Vocês se lembram daquela história de que “respeito começa em casa”? É por aí.

Enquanto não pararmos de usar bicha, maricona, mona, viado, passiva e mulher como xingamentos não conseguiremos parar de usá-los como forma de roubar de um homem a sua masculinidade – como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo, aliás. Mais importante ainda: não estaremos sendo coerentes com nosso grito por tolerância. É perfeitamente possível ser irônico com um paspalho desses, usando a inteligência, ainda mais que ele dá motivo toda hora.

Fora que néam, se for para falar de um estereótipo gay que vale a pena, somos pessoas bonitas, articuladas, felizes e de bem com a vida. Falar mal de mulher ou demonizar lésbicas não faz sentido, e inferir que gente como Feliciano, Malafaia e afins é gay, seria elogiar quem não merece. Uma opção seria mandar todo mundo se foder, mas não queremos agradar também…

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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