Qualé da Parada?


Mais de 40 anos nos separam de Stonewall e várias coisas foram conquistadas. O Movimento Gay nos deu uma cara e uma identidade, que celebramos através das Paradas do Orgulho, ao redor do mundo. No Brasil, a maior é a de São Paulo, que nesse ano aconteceu no último domingo. Por que será, então, que este evento divide tanto as opiniões na nossa comunidade?

Como o assunto da coluna é o comportamento gay, em termos socioculturais, não discutiremos à fundo as implicações políticas da Parada. Para tal, recomendo a leitura deste post aqui, do Amálgama, que é bastante preciso.

Mas e aí, qualé da Parada? De um lado, temos os que julgam que o evento “virou putaria” e de outro, os que acreditam na força política do movimento. Será possível que não há como chegarmos num meio-termo? Eu já disse, numa coluna passada, que a Comunidade Gay é uma invenção relativamente recente, que ainda não cumpriu seu papel histórico. As Paradas, como ilustração desse movimento, estão na mesma situação.

Nada é perfeito, especialmente quando junta milhares de pessoas, então é natural que os discursos entrem em choque. Cabe-nos pensar em alternativas para potencializar o poder de algo tão grande, fazendo com que o teor político da Parada ecoe, mesmo como festa. A festa em si não é problema. É muito mais fácil juntar tanta gente – o que é fundamental para dar corpo e visibilidade ao evento – com trios elétricos, ao invés de debates. E não venham apontar dedos e dizer que isso é falta de comprometimento dos gays, porque até o “Veta, Dilma” teve show do Naldo pra chamar público. Carnaval, micareta, passeata, showmício, procissão… Tudo que junta muita gente tem grande chance de desandar, e na Parada temos até sorte, já que raramente há algum incidente mais violento, somente roubos de carteira. Em geral, a maior reclamação é de cunho moralista. Fulaninho está em casa jogando XBox, muitas vezes sem fazer qualquer coisa por essa luta, e enche o peito para dizer que não faz parte daquela multidão. Sente até orgulho, como se fosse melhor do que um manifestante porque não mostra a bunda ou faz sexo na rua ou usa sapato alto para aparecer no Fantástico. Beleza, fazer tudo isso é uma escolha e não fazer também. Não é um concurso de qual escolha é melhor.

Já houve algumas polêmicas na coluna com os assuntos “homofobia internalizada” e “machismo entre gays”. Na real, são duas faces da mesma moeda. Mas enfim, reportem-se aos arquivos para ler mais sobre… No texto de hoje, o importante é ressaltar o fato de que um homem desfilar vestido de mulher na Parada não faz dele menos homem, sério ou humano. Não é nenhum mérito também. Acho que todos concordamos que, por exemplo, o célebre Marco Feliciano não é menos maluco só porque está de terno e gravata em Brasília. Dessa forma, não entendo a razão de uma Drag Queen na Av. Paulista ser menos merecedora de atenção só por estar de salto e peruca. Não importa quem ela é, o que tem a dizer e suas qualificações? Por qual motivo tudo isso perde o valor? Por que ela não é “respeitável”? Por estar de vestido ao invés de terno? Bitch, please!

E sobre o sexo, acho que é algo que todo mundo gosta, né? Quem não gosta, provavelmente não está fazendo direito e deveria procurar ajuda urgentemente! O fato de existirem pessoas que fazem sexo nas ruas durante a Parada, bem como muitos héteros fazem no Carnaval, não é culpa do evento ou DOS GAYS! Nós estamos há décadas pedindo apenas para que nos deixem viver nosso afeto e nossa sexualidade em paz, e no entanto ainda nos comportamos como fiscais do cu alheio! Ora, não dá! Fazer sexo na rua é punível por lei. Portanto, cabe à POLÍCIA tomar alguma providência sobre. Se você estiver em qualquer evento e vir um casal em conduta imoral, vá ao policial mais próximo. É simples. Agora, não use o erro de uns para demonizar toda uma comunidade ou tirar onda de santo! É desumano e desleal. É o que fazem os Bolsonaros, Malafaias e afins.

Se você não acha certo e acredita que tais condutas desqualificam o evento, faça a sua parte. Além de denunciar, no caso de ter presenciado QUALQUER ato fora da lei (seja sexual ou não), participe do evento também e, principalmente, do debate. Mostre que há várias facetas da Comunidade Gay, não só a que tanto te envergonha. Não é justo que todos sejam vistos apenas pelo pior prisma, seja por causa de quem for. Mais errado que cometer algum crime é ser injusto consigo mesmo. É “tirar o corpo fora” e para isso jogar o amiguinho na fogueira.

A luta que deu origem a tudo isso foi contra esse tipo de comportamento. Foi uma luta pela liberdade, que infelizmente está longe do fim. Se você é gay e quer que isso seja respeitado, lute também. Há várias maneiras de fazer isso e a Parada é apenas uma delas.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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