Baby, I was PORN this way!


Um policial que enfia até o cassetete; um teen que seduz o pai ursão; escoteiros que armam a barraca; Batman & Robin e é claro, héteros que descobrem como é gostoso “levar ferro” de três negões! Em meio aos gemidos, trilha sonora duvidosa e interpretações memoráveis, o nosso pornô acaba revelando o que há de mais bizarro, engraçado e discutível na nossa identidade sexual.

Todo mundo já viu, mesmo que não admita. Muitos riem por desconforto, ou porque várias vezes os temas e a direção de arte são simplesmente absurdos… Mas é fato que o pornô faz parte da nossa cultura tanto quanto o sexo que ele representa, o que significa dizer que ele sempre existiu! Entre “ais” e “oh, yes”, essa indústria bilionária funciona como qualquer gigante capitalista do entretenimento que se preze: satisfaz nossos desejos enquanto molda nossa percepção e interfere em nossos hábitos, gerando e alimentando seu próprio público consumidor.

É um tema abrangente, que merece uma pesquisa mais detalhada, já que representações de atos sexuais sempre estiveram presentes em nossa cultura, mas como nosso espaço aqui é limitado e não quero passar anos (e ânus) falando sobre isso, esclareço que a coluna de hoje vai falar apenas do moderno pornô gay.

O que chama a atenção no nosso pornô é que apesar de ele ser uma coisa tão natural quanto o sexo em si, sofre a mesma demonização. Estamos em 2013, e as discussões sobre identidade sexual só mostram como o que fazemos “entre 4 paredes” ainda mexe com nosso imaginário, atiçando não só nossas fantasias, mas também reações violentas de vergonha, negação e medo. Expressar a sexualidade ainda é um tabu, mesmo no país do Carnaval, e isso só aumenta a necessidade de válvulas de escape para taras inconfessáveis, a curiosidade por certas práticas ou mesmo pelo corpo do outro. A ideia moralista de que o sexo é algo sujo, que nem deve ser discutido e nem muito menos exibido, se estende ao pornô, ainda mais quando ele é gay.

Claro, há quem goste apenas por gostar, por encarar como mais uma divertida vivência da sexualidade, mas sabemos que ser bem resolvido sexualmente é para poucos, e que esses sempre sentirão o peso do julgamento alheio por isso. Há um claro paralelo com a homossexualidade em si, justificando a relação tão íntima que temos com essa arte, apesar de logicamente existirem muitos gays mal-resolvidos também. A graça de toda essa simbiose é que o material produzido nos ensina como ter prazer, até quando acreditamos que só consumimos o que queremos!

No pornô, endeusamos livremente a figura do “macho alpha”, do ativo comedor com 25cm de pau e que ainda dá uns tapas para “animar”. Brincamos com as relações de poder. É chefe que assedia funcionário, sargento que abusa de soldado, aluno que seduz professor e o mecânico sujo de graxa que está sempre afim de “trocar o óleo”. Quando é preciso, quebramos esse “herói” também, nos contos e filmes onde gays dominam algum hétero até que ele fique parecendo uma vela votiva, de tanta gala pingando da cara. É como se nesse mundo paralelo pudéssemos assumir o fetiche com o masculino e redefiní-lo em bigodes, veias saltadas e puxões de cabelo, mas também nos vingar de qualquer recalque quanto à rejeição da nossa sexualidade, mostrando pra eles “o que é bom”. Além disso, a posição de consumidores também nos dá poder, e permite que o prazer do pornô invada o campo social. Sim, pode ser excitante ver um hétero sendo sodomizado na tela, satisfazendo a velha fantasia gay de que podemos “converter” qualquer um. Só que no pornô temos atores que se identificam como héteros, mas fazem filmes gays (não cabe discutir aqui o que eles são ou não, estou falando do que dizem mesmo), e aí temos uma relação de poder estabelecida, já que o dinheiro vai acabar convencendo esses homens a fazerem o “impensável”. Mais ainda, o público paga mais quando sabe que “o machão comedor” está se sujeitando ao sexo com homens. E assim, de uma tacada só, um filminho de 15 minutos consegue discutir nossa relação com a virilidade, com a homossexualidade e com o capitalismo, sem nem percebermos.

Um exemplo interessante é o tipo de atenção que o Harry Louis, namorado do estilista americano Marc Jacobs, e ex-ator pornô, vem recebendo. Será que os amigos famosos continuarão seus amigos se o namoro terminar? Ontem, quando já tinha rascunhado a maior parte desta coluna, cruzei com ele em Ipanema e fiquei pensando nesse grau de intimidade engraçado, de já ter visto aquele rapaz – que, até então, nunca tinha visto na vida – em pleno ato sexual. Aí me veio na cabeça esse título de “ex-ator pornô”, que é a única forma como as pessoas se referem a ele, como se isso fosse muito condenável e, principalmente, impossível de esquecer.

Há uma curiosidade sobre a relação dele com Jacobs, como se ele tivesse tido que superar essa grande mancha na vida do namorado, além das evidentes insinuações sobre os sentimentos de ambos, como se um ator pornô tivesse que necessariamente ser michê. Mais uma vez, temos os mesmos valores em questão: moralismo, endeusamento da virilidade, fascínio pelo poder do dinheiro e até desprezo pela figura da “bicha velha”.

Há tantas variedades de pornô quanto de fantasias sexuais. Quando falamos da identidade gay, na qual a sexualidade é vivenciada de uma maneira especial justamente pelo tratamento diferenciado que ela recebe da sociedade, as questões se multiplicam. Com a coluna de hoje, eu proponho que façamos uma análise das coisas que nos excitam, pois acredito que isso possa nos ajudar a descobrir novas maneiras de explorar nosso prazer… Mas fiquem tranquilos, dá pra pensar sobre isso depois de gozar. Aliás, é até melhor!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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