Além de Nárnia, o nosso abraço…


Na semana passada tivemos uma batalha inesperada entre duas Divas. De um lado, Joelma, a musa do Cavalo Manco, se embananou por causa de religião, comparando homossexuais a drogados. Do outro, de maneira singela e por isso mesmo muito potente, Daniela Mercury assumiu seu relacionamento com uma mulher. A reação da comunidade gay aos dois acontecimentos foi radicalmente diferente, é claro, mas muito significativa.

Fala-se em “Ditadura Gay” e “Gayzismo” quando alguma declaração tida como homofóbica é combatida por nós. Não sei se esperam realmente que a gente aceite qualquer coisa de cabeça baixa, ou se o grande problema é confundir liberdade de expressão com permissão pra se dizer qualquer absurdo. O fato é que hoje em dia, no Brasil, a questão da homofobia, dos Direitos Humanos e do politicamente correto está em voga, e com isso é natural que os ânimos fiquem exaltados, especialmente quando entra o fator religião no meio de tudo.

Falarei de religião numa coluna futura. Para o papo de hoje, cabe apenas destacar o lado emotivo da coisa. Feliz ou infelizmente, a religião toca o emocional e portanto passa por cima da razão com muita facilidade. É por isso que a Joelma, pessoa pública que é, achou mais importante defender uma posição que ela acredita ser justificada pela Bíblia do que agir como boa cristã e simplesmente amar o próximo. Burrice, já que ela tem muitos fãs gays e qualquer celebridade sabe que deve preservar a imagem. Vieram os protestos, as piadinhas, o vídeo de “malz aê” e o prejuízo, com o provável cancelamento do filme sobre a banda Calypso. Será isso que chamam de “Ditadura Gay”? Essa revolta que acaba por prejudicar aqueles que nos atacam? Não pode ser, né? Afinal, todos que se sentem ofendidos são livres para responder e, especialmente, não dar mais dinheiro àqueles que falam impropérios… E veio Daniela. É até triste, mas o mundo da música aceita muito melhor seus homossexuais do que o das Artes Cênicas, onde boatos sobre galãs gays nos corredores do Projac não são nem mais notícia. Talvez seja pelo caráter transformador da canção mesmo, tão arrebatadora que mesmo não curtindo o artista ou o que ele faz na cama (como se tivessemos esse direito, né?), não haja como fugir se a música dele for do nosso gosto. Daniela, coitada, não fez nada de especial. Nada que diga respeito especificamente à Joelma ou Marco Feliciano. Ela apenas se declarou à pessoa amada. Mas no momento que vivemos, qualquer declaração de amor é um bálsamo, e quando a declaração é do tipo “eu sou uma de vocês”, a força é ainda maior. A gente agradece. E não acontece só com pessoas não, nós também abraçamos as empresas que nos respeitam, o que é lucrativo para todos. Está aí o exemplo dos Hotéis Mercure, que com um simples tweet conquistou uma enorme (and riiiiica!) legião de clientes:

mercure

Muitos homossexuais (não todos, é claro) crescem sendo julgados por familiares e vizinhos. Há uma sensação de isolamento, de carência, de não ter lugar no mundo, uma busca incessante por aceitação. Dessa forma, quando uma pessoa pública se assume, nos atiramos a ela de braços abertos, como se ela fosse um ativo de 25 cm um guerreiro voltando da batalha. O que, metaforicamente, é. Foi assim com Daniela, foi assim com Ricky Martin. Durante anos, especulações sobre os dois beiravam o humor sádico, mas bastou que eles saíssem do armário para serem reconhecidos, e aceitos, como nossos irmãos.

Isso é muito bonito. Essa solidariedade, essa outra postura. É como se as pessoas passassem a vida num mundo maldoso de repressão e escárnio, até cruzarem um simples armário mágico, e aí elas são recebidas por outros heróis, que entendem bem a batalha travada. Ah, então esses artistas são aplaudidos apenas pelos gays? Não, Ricky Martin é mesmo um exemplo ótimo. Todas as fãs loucas continuam morrendo de tesão nele, mas agora também são suas maiores defensoras, uma vez que os sonhos de romance eram apenas projeção da relação fã/ídolo. Que venham outros Rickies e outras Danielas. Talvez o Axé e a MPB sejam menos machistas que o Sertanejo Universitário, mas ainda que a gente não ofereça o sol ou o mar, estamos aqui, de braços abertos.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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